domingo, 11 de outubro de 2009

Boa noite e boa sorte



Não. Este post não é sobre a saudação de Paulo Henrique Amorim no encerramento do programa que apresenta aos domingos na televisão.

É sobre um filme que assisti pela metade há quatro anos e perdi de vista. Na época, o desprezei por ser em P&B. Nem me detive ao contexto. Ainda bem que nossas percepções mudam. Filmes cult não dão sopa por aí em qualquer locadora. Enfim, o reencontrei. Desta vez assisti com atenção, tal como deveria ter feito quando passou num canal de TV a cabo.
A história de Boa Noite e Boa Sorte é ambientada nos Estados Unidos, durante os anos cinqüenta, época em que a audiência da televisão, recém surgida, começava a superar a do rádio. As transmissões jornalísticas ao vivo atraiam a atenção dos telespectadores norte-americanos. Um dos profissionais mais conceituados daquele período foi o jornalista Edward R. Murrow. Muitos historiadores o classificam como uma das maiores personalidades do jornalismo mundial. Murrow ocupou o topo da lista dos correspondentes de guerra e era admirado por sua honestidade e integridade na transmissão de notícias.
Na CBS, Columbia Broadcasting System, uma das maiores redes de TV dos EUA, Murrow apresentou uma série de reportagens ao vivo contra o Macartismo , nome pelo qual ficou conhecida a política anti-comunista deflagrada pelo senador republicano Joseph McCarthy. A marcha contra os comunistas implantou a cultura do medo e interferia claramente na democracia nos Estados Unidos. Várias cenas de Boa Noite e Boa Sorte são imagens de arquivo que mostram Joseph McCarthy a frente do comitê de investigação do senado americano sobre comunistas no país; infringindo claramente os direitos humanos numa desvairada caça às bruxas, acusando e punindo supostos comunistas sem comprovação.
O filme começa e termina com um discurso de Murrow durante homenagem oferecida a ele pela Associação dos Diretores de Rádio e TV. No discurso, ele deixa clara a sua opinião sobre as funções de informar e educar, que os meios de comunicação já possuíam, principalmente a TV. No filme, Edward R. Murrow se defronta com situações controversas e ainda atuais no meio jornalístico: Não deveria o jornalista dar uma informação que julga relevante, mesmo que vá contra os interesses da empresa na qual trabalha? Até que ponto pode abrir mão de seu direito à liberdade de expressão para que os anunciantes do programa não deixem de investir, diante da ousadia da denúncia? Quando e quanto o jornalista deve ceder, diante de uma contestação do governo ameaçado por notícia que não é de seu interesse?
A atualidade do filme e das preocupações de Murrow é flagrante. A TV ainda é o meio de comunicação que atinge o maior número de pessoas. O filme deixa uma reflexão básica e importante: Os comunicadores e principalmente os executivos do setor precisam refletir e mudar suas atitudes diante da missão da TV. Ainda hoje, como há mais de meio século, ela vem sendo utilizada para enganar, distrair, desviar a atenção. Ferramenta de dominação muito mais ditatorial e materialista do que democrática e humanista.

Boa Noite e Boa Sorte
(Good Night, and Good Luck - EUA, 2005, 93 min.)
Direção: George Clooney
Elenco: David Strathairn, como Edward Murrow

Nenhum comentário:

Postar um comentário