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Vício Nacional

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  A telenovela brasileira já foi bem melhor. Teve conteúdo e autenticidade. Foi celeiro de escritores e artistas teatrais.  Agora só reedita clichês, renova carinhas bonitas e corpos sensuais. Chamar este produto de "novela" é subverter e desclassificar o estilo literário.  Dia desses revi um capítulo de "Água Viva", em reprise num canal a cabo. Em cena, o falecido Raul Cortez, que sempre me fez vê-lo como um ovo falante. Esta era a imagem em ação que eu formava na minha cabeça infantil, na época em que a telenovela foi exibida pela primeira vez. Talvez, por deter tamanha expressão natural no rosto, o ator abusava do recurso das pausas dramáticas teatrais. Silêncios para o espectador imaginar o pensamento da personagem. Outras feras da dramaturgia também o faziam. Uma época boa em que imaginar e ver televisão ao mesmo tempo, era possível. Hoje, não! A edição é clipada. Frenética. O espectador, hipnotizado. Travado no sofá e longe do controle remoto. O que inter...

Das cavernas às nuvens

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Onde? Do lado de fora da caverna! Logo que saí não me contive. Fui desbravar. O que eram aqueles rabiscos e relevos na rocha? Como foram feitos? Quando? Por que e por quem? Demoraram muitas eras mas conseguimos identificar os caracteres. Uma vontade em compartilhar razões e emoções. E nasceu a linguagem escrita. E Fiat Lux! As ideias brotaram diante dos sentidos. Organizaram-se em mensagem, partiram em caravanas para ligar emissores a receptores. Nem sempre encontraram nexo, sentido, lógica, coerência, sensatez. Mas houve quem extraísse a essência, convertesse um novo pensamento, palavra ou ação; para armazenar ou transformar. Quanto movimento evolutivo a leitura oferta na longa jornada do conhecimento! Mas e a criação individual? Quem de fato detém o saber? O reconhecimento pertence àquele que primeiro registrar a ideia, claro. O que seria da máquina capitalista sem royalties, patentes, direitos autorais? Surge numa inspiração pessoal aleatória ou é uma permissão de acesso aos ar...

pipas brancas não voam mais

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O fim do inverno traz novos ares de alegria. Recordações de divertidas primaveras no meu tempo de guri. Nos anos setenta, as compras não vinham em saquinhos plásticos ecologicamente incorretos como hoje, mas em embrulhos de papel amarrados com linhas grossas de algodão. Aquela embalagem servia para carregar roupas, remédios, alimentos. Desfeitos os embrulhos, o cordão e o papel não iam imediatamente para o lixo. Na prática e de forma inconsciente, os moleques da época já experimentavam a sustentabilidade. Os cordões e papéis eram reaproveitados no brinquedo favorito: A pipa. No Rio Grande do Sul chama-se “pandorga”. Não comprávamos os brinquedos prontos. Fabricávamos em casa. Dos embrulhos desfeitos, eu pegava os papéis encerados de pão, mais resistentes do que o papel jornal. A estrutura da pandorga era de varetas finas de taquara (bambú), amarradas com os cordões dos embrulhos. O papel era colado nas varetas com grude, cola artesanal feita com farinha de trigo. A água misturad...

A Mentira

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Máscara neolítica - 7.000 a.C. A mentira é tão antiga quanto o desejo de alcançar e manter o poder. Os dois se retroalimentam em motoperpétuo. A sociedade se compraz na falácia, na fofoca, no ti-ti-ti. A máscara e o personagem seduzem os incautos. De fato, a realidade é cruel para muitos e fugir dela é uma necessidade. Na alienação, o hedonismo grita por pão e circo. Dia destes sentei em frente ao iluminado retângulo alienante e busquei pela verdade nos conteúdos da TV aberta. Encontrei vestígios num telejornal de prestígio ancorado por um publicitário que fazia caras e bocas para chamar as reportagens. Nada de novo. A realidade numa versão leviana, superficial, adornada pela estética visual cinematográfica. Noutro canal, (de esgoto noticioso) o apresentador vociferava contra os direitos humanos e pregava a pena de morte com o dedo em riste. Parecia candidato político. Zap! Noutro canal, algo não me cheirou bem. Um repórter se ufanava por ter conseguido uma maté...

O BARCO DO SHOPPING

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Este belo iate atracado na Marina da Glória, no Rio de Janeiro, ao lado do Lady Laura IV, do cantor Roberto Carlos,  é uma dos mais luxuosos do mundo. Não tanto quanto o do Rei, mas parecido. Brinquedinho de outro artista? Certamente. O iate é de um ilusionista. Pertence ao empresário   José Isaac Peres, presidente da Multiplan -  dona de 13 shopping centers em todo o Brasil. A lancha tem trinta e um metros de comprimento. Modelo Azimut 105 . Uma nova custa cerca de 16,5 milhões de reais. Não tenho dúvida de que tal jóia dos mares foi comprada com a nossa compulsória contribuição. Sim, nós motoristas que pagamos o abusivo valor de estacionamento nos centros comerciais do grupo.  Um breve cálculo revela a facilidade com que o dono do negócio acumula a montanha de dinheiro necessária para comprar o iate. Diariamente, 20 mil carros circulam pelo estacionamento do Barra Shopping, no Rio de Janeiro. É só calcular... Dá 120 m...

O Leão e o Cafezinho

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Dois leões fugiram do Jardim Zoológico. Na fuga, cada um tomou um rumo diferente. Um dos leões foi para as matas e o outro foi para o centro da cidade. Procuraram os leões por todo o lado, mas ninguém os encontrou. Depois de um mês, para surpresa geral, o leão que voltou foi justamente o que fugira para as matas. Voltou magro, faminto, alquebrado. Assim, o leão foi reconduzido à sua jaula. Passaram-se oito meses e ninguém mais se lembrou do leão que fugira para o centro da cidade, quando um dia, o bicho foi recapturado. E voltou ao Jardim Zoológico, gordo, sadio, vendendo saúde. Mal ficaram juntos de novo, o leão que fugira para a floresta perguntou ao colega: - Como é que conseguiste ficar na cidade esse tempo todo e ainda voltar com saúde? Eu, que fugi para a mata, tive que voltar, porque quase não encontrava o que comer... O outro leão então explicou: - Enchi-me de coragem e fui esconder-me numa repartição pública. Cada dia comia um funcionário e ningué...

10 lições japonesas

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1 – A CALMA Nenhuma imagem de gente se lamentando, gritando e reclamando que “havia perdido tudo”. A tristeza por si só já bastava. 2 – A DIGNIDADE Filas disciplinadas para água e comida. Nenhuma palavra dura e nenhum gesto de desagravo. 3 – A HABILIDADE Arquitetos fantásticos, por exemplo. Os prédios balançaram, mas não caíram. 4 – A SOLIDARIEDADE As pessoas compravam somente o que realmente necessitavam no momento. Assim todos poderiam comprar alguma coisa. 5 – A ORDEM Nenhum saque a lojas. Sem buzinaço e tráfego pesado nas estradas. Apenas compreensão. 6 – O SACRIFÍCIO Cinquenta trabalhadores ficaram para bombear água do mar para os reatores da usina de Fukushima. Como poderão ser recompensados? 7 – A TERNURA Os restaurantes cortaram pela metade seus preços. Caixas eletrônicos deixados sem qualquer tipo de vigilância. Os fortes cuidavam dos fracos. 8 – O TREINAMENTO Velhos e jovens, todos sabiam o que fazer e fizeram exatamente o que lhes foi ensinado. 9 – A IMPRENSA Mostra...