sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Diamante bruto


O atrito é fundamental no processo de aprendizagem sobre a vida. Sempre recordo a lição sobre isso que obtive no interior da Bahia,  na região da Chapada Diamantina, com um antigo garimpeiro. Foi durante uma reportagem sobre o ciclo do diamante que atraiu milhares de aventureiros para aquelas bandas no século 18, em busca de fortuna. O garimpeiro era um senhor octogenário. Franzino. Coluna arcada. Caminhava com dificuldade,carregando as bateias. Algumas vezes por mês, recebia visitas de estudantes de escolas públicas da região para mostrar-lhes o extinto ofício de garimpar diamante nos córregos dos rios. No auge da extração, as pequenas pedras preciosas brotavam nas margens, carreadas pela correnteza que descia dos nascedouros entre as montanhas. Apesar da idade avançada, o velho garimpeiro ainda enxergava bem e era capaz de surpreender o pequeno público de alunos com o  seu show. O velho retirava alguns cinco ou seis mosquitinhos de diamante do picuá e atirava no chão, dentro de um buraco raso na areia coberta de água. Mergulhava a primeira peneira, com malha mais grossa. Depois a média. Em seguida a fina. Até reencontrar os pequenos diamantes. Pegava  o menor deles e dizia: Este aqui é muito pequeno. Não tem tamanho para virar brilhante. Nunca será uma joia preciosa. Será eternamente bruto. Não merece ser lapidado, pois não tem massa para ser perdida no polimento realizado pelo lapidador. Neste processo, um disco giratório, recoberto de pó de diamante, a mais dura das pedras, é usado para criar as facetas que padronizam o brilhante. É a dureza do diamante em atrito com o próprio diamante, que o transforma em joia. O desgaste enobrece. E o velho franzino e arcado não
se cansava de passar essa nobre lição adiante. 

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